Texto
Bíblico: EVANGELHO DE MATEUS 13. 24-30
Introdução
“Político
é tudo igual!” “Nenhum presta!” “É
tudo farinha do mesmo saco!”
Alguém aqui já ouviu estas afirmações alguma
vez?!
Certamente, os irmãos e as irmãs já ouviram estas
frases muitas vezes. Este é um pensamento dominante com relação
aos políticos. Não deixa de ser um pensamento pessimista,
e até preconceituoso, igualar a todos os políticos, como
se todos fossem corruptos, ladrões, interesseiros, mal-intencionados,
etc.
É claro que as pessoas não são iguais. Também
os políticos não são iguais. Não é
correto dizer que são todos “farinha do mesmo saco”.
Existem, na política, homens e mulheres sérios, corretos,
honestos, honrados, pessoas de bem.
É verdade que o momento em que nós vivemos na política
brasileira parece provar justamente o contrário. Ainda na última
semana fomos surpreendidos com cenas confusas, tristes e até ridículas.
Por exemplo: um assessor político, irmão do ex-presidente
do PT, foi flagrado com grande soma de dinheiro, inclusive com dólares
“colados” ao corpo e escondidos na cueca; um deputado federal
do PFL, bispo da Igreja Universal do Reino de Deus, juntamente com dois
pastores, foi detido pela Polícia Federal, no aeroporto de Brasília,
por querer transportar sete suspeitas malas cheias de dinheiro (segundo
eles, tratava-se de ofertas e dízimos dos crentes).
Quando vemos membros do partido político que se encontra atualmente
no governo acusados de corrupção, ou mesmo políticos
evangélicos excluídos de partidos por causa de comportamento
suspeito, não condizente com o exercício parlamentar, ficamos
realmente desanimados e tentados a pensar que “político é
tudo igual” mesmo.
Creio que o texto do Evangelho de Mateus, oferecido pelo lecionário
cristão para este domingo, traz uma mensagem muito oportuna para
estes dias que estamos vivendo.
O
TEMPO DA COEXISTÊNCIA
Aqui,
Jesus passa sua mensagem por meio de uma parábola. As parábolas
eram recursos que Jesus utilizava com freqüência em seus ensinamentos.
O texto lido trata-se da famosa parábola do joio e do trigo.
Ela começa assim: “... O reino dos céus é semelhante
a um homem que semeou boa semente no seu campo; mas enquanto os homens
dormiam veio o inimigo dele, semeou o joio no meio do trigo e retirou-se.
E, quando a erva cresceu e produziu fruto, apareceu também o joio.”
(Versículos 24 a 26)
Nesta parábola, encontramos duas características marcantes
dos discursos de Jesus. A primeira é que as coisas que Jesus falava
sempre estavam relacionadas ao reino de Deus. O evangelista Mateus, em
seu Evangelho, usa a expressão “reino dos céus”.
As mensagens de Jesus eram sempre mensagens sobre o reino dos céus.
E aqui não é diferente. Logo de início, o Senhor
Jesus deixa bem claro que a comparação será sobre
o reino dos céus.
A segunda característica marcante dos discursos de Jesus, e também
presente nesta parábola, é o fato de Jesus referir-se às
coisas terrenas, às coisas presentes neste mundo na realidade da
vida cotidiana. Nesta parábola, Jesus fala de semeador, fala de
seus empregados, fala de semente, fala de campo, fala de joio, fala de
trigo, fala de colheita... Ou seja, para falar do “reino dos céus”,
Jesus fala do “reino da terra”. O reino de Deus é comparado,
por Jesus, com as realidades que experimentamos neste mundo.
Tudo isto é muito interessante. Com Jesus, o reino de Deus começou.
Com Jesus, o reino de Deus veio até nós. É evidente
que o reino de Deus ainda não está plenamente instalado
em nosso meio, mas ele já está entre nós. Em outras
palavras: o reino de Deus coexiste com o reino deste mundo; o reino de
Deus está presente no reino deste mundo.
Esta é a primeira informação que podemos aprender
com a parábola do joio e do trigo. No campo daquele patrão,
foi semeado o trigo. Mas, sem que ele quisesse, alguém também
semeou o joio. E esta é uma realidade inquestionável. O
trigo e o joio, agora, estão misturados, co-habitam no mesmo terreno,
coexistem lado a lado. Enquanto crescem e se desenvolvem, eles são
muito parecidos e é possível até confundi-los.
O que Jesus está querendo dizer é que este mundo em que
vivemos é mundo de contrastes e contradições; é
mundo de tensões e conflitos. O bem e o mal, coexistem. A justiça
e a injustiça, habitam lado a lado. A piedade e a impiedade, por
vezes, estão misturadas. A boa semente e a má semente crescem
no mesmo campo. Estas contradições existem neste mundo porque,
em primeiro lugar, elas existem dentro do próprio ser humano. O
ser humano, enquanto “imagem e semelhança de Deus”,
possui dentro de si a virtude, o fôlego do Criador. Mas, este mesmo
ser humano, por causa da herança de Adão e Eva, possui dentro
de si o pecado e o mal. E, quanto a isto, não há o que se
fazer. É um dado da nossa realidade e natureza.
Assim, o tempo presente, em que vivemos esta vida terrena, é o
tempo da coexistência do joio com o trigo. O joio e o trigo estão
presentes e misturados neste mundo. O joio e o trigo estão presentes
e misturados dentro do próprio ser humano.
O
TEMPO DA MISERICÓRDIA
Mas,
na parábola contada por Jesus, há uma outra informação
para a qual devemos atentar. Jesus continua: “Então, vindo
os servos do dono da casa, lhe disseram: Senhor, não semeaste boa
semente no teu campo? Donde vem, pois, o joio? Ele, porém, lhes
respondeu: Um inimigo fez isso. Mas os servos lhe perguntaram: Queres
que vamos e arranquemos o joio? Não! Replicou ele, para que, ao
separar o joio, não arranqueis também com ele o trigo.”
(Versículos 27 a 29)
O dono do campo semeou a boa semente, mas ele reconhece que, enquanto
seus servos dormiam, um inimigo semeou uma semente ruim. Quem é
este inimigo? É alguém que faz uma maldade, que semeia uma
erva daninha em um campo de boa semente. Podemos chamá-lo de “diabo”,
de “pecado”, de “ser humano decaído”; podemos
chamá-lo de “estruturas humanas injustas”, etc. Este
inimigo é tudo aquilo ou todo aquele que combate o bem e trabalha
contra a boa semente.
Diante da atuação desse inimigo e diante do crescimento
do joio no meio do trigo, o que fazer? Ficar de braços cruzados,
vendo a erva daninha crescer no meio do campo? Os empregados do patrão
acreditam que essa não é uma boa alternativa. Eles querem
separar o joio do trigo. Então, perguntam ao seu senhor: “Queres
que vamos e arranquemos o joio?” Eles estão decididos: misturados,
o trigo e o joio não podem permanecer; o joio precisa ser arrancado
e exterminado imediatamente.
O fato é que a proposta deles é recusada pelo patrão.
Diante da consulta dos empregados, aquele senhor responde com firmeza.
O patrão era um homem sábio. Ele sabia que o trigo e o joio
estariam “muito” misturados na plantação. Ele
sabia que seus servos não teriam competência ou mesmo cuidado
para separar o joio sem, com isto, arrancar junto o trigo.
E aqui aprendemos mais uma lição do Senhor Jesus. Já
vimos que o tempo que vivemos no presente é o tempo da coexistência
do joio com o trigo, do bem com o mal, da virtude com o pecado. Mas, Jesus
quer dizer também que este tempo de coexistência deve ser,
igualmente, tempo de misericórdia.
Na época de Jesus, havia muitos que desejavam separar o joio do
trigo. Um exemplo são os fariseus. Eles queriam separar os puros
dos impuros, os justos dos injustos. Para os fariseus, o trigo eram aqueles
que obedeciam cegamente à Lei de Moisés. O joio, naturalmente,
eram os pecadores que não seguiam à Lei.
Jesus, porém, opunha-se aos fariseus porque, com a Lei, eles acabavam
oprimindo o povo. Na ânsia de separar o joio do trigo, os fariseus
acabavam arrancando o bom fruto junto com o fruto ruim. Em oposição
aos fariseus, Jesus diz: “não julgueis para que não
sejais julgados”; “os sãos não precisam de médico,
mas sim os doentes”; “misericórdia quero e não
sacrifícios”.
Para Jesus, o tempo presente é o tempo da coexistência do
joio com o trigo, mas deve ser também o tempo da misericórdia;
deve ser também o tempo do testemunho do Evangelho do reino de
Deus; para que, pela ação do Espírito Santo, aconteça
o milagre da transformação de joio em trigo. Aquele que,
no presente, pretende arrancar o joio, sem piedade nem misericórdia,
corre o sério risco de arrancar junto o trigo.
O
TEMPO DO JULGAMENTO
A
parábola se encerra com a palavra do patrão: “Deixai-os
crescer juntos até à colheita, e, no tempo da colheita,
direi aos ceifeiros: ajuntai primeiro o joio, atai-o em feixes para ser
queimado; mas o trigo, recolhei-o no meu celeiro.” (Versículo
30)
Trigo e joio ficarão juntos por um determinado espaço de
tempo: apenas até chegar a hora da colheita.
Existe uma explicação para isto. Em primeiro lugar, dissemos
há pouco que o trigo e o joio enquanto estão crescendo são
muito parecidos e podem até ser confundidos. Todavia, depois de
maduros, depois que dão seus frutos e estão prontos para
serem colhidos, aí eles já não são tão
parecidos e é possível distinguí-los melhor.
Em segundo lugar, no momento da ceifa, eles devem ser separados porque
o trigo é alimento, mas o joio é erva daninha. O trigo resulta
na farinha, que se transforma em pão, alimento fundamental na Palestina
dos tempos de Jesus. Entretanto, o joio é uma erva venenosa. O
Rev. Michael Bitchmaya (ministro presbiteriano que viveu e lecionou em
São Paulo), em um de seus livros, comentando a parábola
do joio e do trigo, enumera os sintomas físicos que surgem naquele
que come do joio: dor de cabeça; tontura; sonolência; alteração
da visão; alteração da audição; secura
na boca; dor de estômago; tremor; entre outros (A Entrada do Rei
da Glória no Reino Visível, vol. 4, p. 86-87). Trigo é
alimento. Joio faz mal à saúde. Na colheita, é preciso
separá-los.
E aqui nós aprendemos, com Jesus, que existirá também
um tempo de separação da boa e da má semente, do
bom e do mau fruto. É o tempo da colheita. Em outras palavras,
o Senhor Jesus está se referindo ao fato de que, no final dos tempos,
haverá uma separação dos bons e dos maus, dos justos
e dos injustos. Ou seja, virá o tempo do julgamento, quando trigo
e joio manifestarão seus frutos e receberão, cada um deles,
o seu destino: o trigo irá para o celeiro e vai virar alimento;
o joio vai virar lenha e será queimado no fogo.
Conclusão
Meus
irmãos e minhas irmãs, nós começamos falando
nesta noite sobre os políticos. Comentamos sobre o pensamento dominante
em nosso tempo que diz: “político é tudo igual”,
“nenhum presta”.
A parábola que Jesus contou sobre o trigo e o joio nos ajudam a
entender a nossa realidade. Podemos compreender melhor os nossos políticos
ouvindo o que Jesus diz. Na verdade, os políticos são como
o joio e o trigo. Os bons e os maus estão todos misturados e, às
vezes, eles são muito parecidos. Agora mesmo, nós estamos
com a impressão de que só tem joio ou, no máximo,
muito pouco trigo em nossa política nacional. A vontade que dá
é arrancar tudo de uma vez e jogar fora. Mas, com isto, corremos
o risco de jogar fora também o bom trigo, que está misturado
com o joio.
Precisamos estar muito atentos nestes dias. Por mais que sejamos bons
juízes, não temos capacidade e competência para olharmos
para além das aparências dos seres humanos; nossos olhos
não penetram no interior das mentes e dos corações.
Isto, só Deus pode fazer. Por isso, temos que tomar cuidado para
não tomarmos trigo por joio e joio por trigo.
Devemos, isto sim, anunciar o Evangelho e dizer que, em Cristo, os pecadores
arrependidos têm acesso à salvação. O nosso
tempo é o tempo em que os bons e os maus estão todos misturados
e, por isso mesmo, deve também ser tempo da misericórdia
e do testemunho.
Ao Deus soberano cabe o julgamento. Naquele dia da colheita, o supremo
Juiz haverá de separar o joio do trigo. As obras de cada um serão
manifestadas. Os frutos de cada um serão apresentados. Então,
ele lançará o trigo no celeiro e o joio no fogo. Políticos
ou não, todos nós conheceremos o nosso destino naquele dia!
Deus nos ajude para que, enquanto vivemos entre joio e trigo, ouçamos
a voz de Cristo e, ouvindo a sua voz, cresçamos e frutifiquemos
como boa semente.
Amém!
Sermão
pregado na IPI de Casa Verde,
no 16º Domingo do Tempo Comum,
dia
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