| Texto
Bíblico: Filipenses 2. 5-11
Introdução
Hoje, celebramos o Domingo de Ramos. O Domingo de Ramos é aquele
que antecede o Domingo da Páscoa. É chamado “de
Ramos” porque faz referência à entrada de Jesus em
Jerusalém, quando o povo o recebeu acenando com ramos de árvores.
Há, porém, um detalhe que não podemos esquecer.
Conforme a orientação do cabeçalho do nosso boletim
litúrgico, hoje é o Domingo de Ramos “e da Paixão”.
Sim, hoje não é apenas o Domingo de Ramos, mas também
é o Domingo da Paixão. Ao entrar em Jerusalém,“(...)
as aclamações populares se contrastam com o fato de Jesus
estar caminhando para o confronto cósmico com as trevas, para
a tortura, abandono, traição e morte horripilante da cruz.”
(Nosso Culto, Passo a Passo – Rev. Richard Willian Irvin) Ramos
e Paixão, celebrados em um mesmo domingo!
Neste sentido é que publicamos na capa de nosso boletim o texto
do Rev. Abival Pires da Silveira (extraído do livro recém
lançado De Geração em Geração, p.
230), intitulado “Só a Cruz Não Basta...”.
O Rev. Abival encerra o referido texto com as seguintes palavras: “Não
há só o Cristo do Tabor e da entrada triunfal em Jerusalém.
Há também o Cristo do Calvário e da Paixão.
Só Ele pode conduzir-nos à Ressurreição
e à Vida.”
Tais afirmações do Rev. Abival são muito interessantes.
Segundo ele, é possível identificar nas Escrituras “dois
Cristos”: um, relacionado ao Tabor e à entrada triunfal
em Jerusalém; o outro, relacionado ao evento do Calvário
e da Paixão.
Partindo dessa idéia, iremos refletir nesta hora sobre o texto
que lemos na carta de Paulo aos Filipenses. Ali também podemos
identificar esses “dois Cristos” de que fala o Rev. Abival.
O
Cristo do Tabor e da Entrada Triunfal em Jerusalém
Em primeiro lugar, vejamos “o Cristo do Tabor e da entrada triunfal
em Jerusalém”.
Logo de cara precisamos perguntar: o que foi que aconteceu no Tabor
para que Cristo seja associado a essa localidade? O Tabor era um monte.
Segundo o Atlas da Bíblia (editado pela Ed. Paulus, 1985, p.5),
ele media cerca de 593 metros de altura e ficava na região da
Galiléia, no território da antiga tribo de Issacar.
O ministério de Jesus Cristo passa pelo monte Tabor. Tradicionalmente,
esse monte é indicado como o local da Transfiguração
do Senhor Jesus. Todos nós devemos nos lembrar que, certa vez,
Jesus subiu ao monte para orar. Levou consigo três de seus discípulos:
Pedro, Tiago e João. Os discípulos dormem no alto do monte.
Jesus continua orando e, enquanto ora, ocorre a transfiguração.
Seu rosto muda de aparência. Suas vestes ficam brilhantes como
os raios do sol. Ao seu lado aparecem dois extraordinários personagens
da história de Israel: de um lado, Moisés, representante
da Lei; de outro lado, Elias, representante da Profecia. Nesta hora
os discípulos acordam e se deparam com esta cena miraculosa e
cinematográfica. Pedro chega a propor a Jesus armar tendas e
acampar ali no alto do monte Tabor. Entretanto, nem bem acaba de falar,
uma nuvem pousa sobre aquele lugar e, do meio da nuvem, ouve-se a voz
de Deus, que diz: “Este é o meu Filho amado, em quem me
comprazo; a ele ouvi.” (Mateus 17.5)
O Rev. Abival, falando desse Cristo, refere-se também à
sua entrada triunfal em Jerusalém. É exatamente isto o
que lembramos no Domingo de Ramos. E foi isto o que as nossas crianças
dramatizaram, agora há pouco. Jesus entrou em Jerusalém
e foi recebido com ramos. Isto significa que a entrada de Jesus em Jerusalém
não foi uma entrada qualquer. Foi uma entrada especial e triunfal.
O povo estava ali reunido para a festa da Páscoa. Uma grande
multidão acompanha Jesus em sua peregrinação à
cidade de Jerusalém para a festa maior dos judeus. A festa da
Páscoa era sempre celebrada com grande expectativa messiânica.
Era a festa que lembrava a libertação do cativeiro do
Egito. Nessa ocasião, as massas populares traziam à memória
a idéia do Messias anunciado pelos profetas, que seria um rei
justo e libertador. Não era à toa que os romanos reforçavam
a guarda militar na cidade de Jerusalém por ocasião da
Páscoa. Eles temiam revoltas e revoluções.
Foi nesse contexto que Jesus resolveu dar cumprimento à profecia
de Zacarias. Tomou um jumentinho e adentrou em Jerusalém montado
sobre ele. Nesse gesto, o povo facilmente pôde identificar: estava
ali o Messias; estava ali o Rei. E foi assim que Jesus foi recebido:
como Messias, como Rei. O povo aclamou a sua entrada: “Hosana
ao Filho de Davi! Bendito o que vem em nome do Senhor! Hosana nas maiores
alturas!” (Mateus 21.9) Jesus entrou montado num jumentinho, tendo
como tapete os ramos das árvores e as vestimentas do povo.
Eis aí, irmãos e irmãs, o “primeiro Cristo”
a que o Rev. Abival se refere em seu texto: o Cristo do Tabor e da entrada
triunfal em Jerusalém. Trata-se do Cristo transfigurado pela
glória messiânica. Trata-se do Cristo louvado e acolhido
em Jerusalém como Rei e Messias. Trata-se do Cristo glorioso,
triunfal, poderoso, exaltado, engrandecido.
O
Cristo do Calvário e da Paixão
Mas, segundo o texto do Rev. Abival, há também um “segundo
Cristo”; um Cristo diferente desse do monte Tabor e da entrada
triunfal em Jerusalém: é o Cristo do Calvário e
da Paixão.
Falemos do Calvário! O que é o Calvário? O Evangelho
diz assim: “Tomaram eles, pois, a Jesus; e ele próprio,
carregando a sua cruz, saiu para o lugar chamado Calvário, Gólgota
em hebraico, onde o crucificaram...” (João 19.17-18) Calvário
é uma palavra de origem latina, cuja raiz aponta para a palavra
“crânio”. É por isso que em outras partes do
Evangelho, o Calvário é apresentado como o “Lugar
da Caveira”. Possivelmente, era um local elevado e que tinha o
formato de um crânio humano. É no Calvário, no lugar
da caveira e da morte, que Jesus será crucificado. No Calvário,
será fincada a cruz sobre a qual Jesus será pendurado
e assassinado. Calvário e cruz, portanto, são duas realidades
inseparáveis. Não existe uma sem a outra. Calvário,
não é lugar de prazer e de delícias. Ao contrário,
é lugar de dor e de morte; é lugar de cruz. Nas palavras
do Rev. Miguel Rizzo Junior (apelidado de “príncipe dos
pregadores” brasileiros), a cruz, para a qual aponta o Calvário,
“era o suplício dos escravos”, “o posto dos
impropérios e das blasfêmias”, “o pavor dos
condenados, pela trágica e demorada agonia que representava”,
“o emblema maior dos vitupérios”. (Varão de
Dores, p. 113) Calvário é cruz!
Ao falar desse outro Cristo, o Rev. Abival diz que é o Cristo
do Calvário e da Paixão. E o que podemos dizer a respeito
da Paixão? Paixão é uma palavra de origem grega:
“pathos”. É dessa raiz grega que se origina, por
exemplo, a palavra “patologia”, que significa doença.
É dessa raiz grega que sai a palavra “apatia”, que
quer dizer indiferença, não sentir a dor. Outras palavras
resultam do grego “pathos”: simpatia, antipatia, empatia,
entre outras. Essa mesma palavra grega serve para falar de amor e de
sofrimento. Paixão é isto: amor e sofrimento; amor e dor.
Falamos, há pouco, do Calvário e da cruz, e devemos dizer
que não é possível fazer referência ao Calvário
e à cruz sem falar de paixão. O Cristo apresentado pelos
evangelhos do Novo Testamento é um Cristo assim: apaixonado!
É um Cristo que ama e que sofre. É um Cristo que obedece
totalmente ao projeto do Pai. É um Cristo completamente entregue
à missão de dor e de sofrimento para a redenção
da humanidade. No ano passado, foi lançado um filme sobre as
últimas horas do ministério terrestre de Jesus Cristo.
Foi um filme que causou grande polêmica, entre outros motivos,
por conta da crueza de suas cenas de violência. Trata-se do filme
de Mel Gibson, sugestivamente intitulado A Paixão de Cristo.
Ficamos abismados ao assistirmos as cenas de espancamento e tortura
a que Cristo é submetido naquele filme. E, sinceramente, o filme,
nesse pormenor, não parece estar longe dos Evangelhos. Somente
um amor sublime, excelso, elevado, sobre-humano, poderia levar Cristo
a entregar-se voluntariamente para tal castigo, coroado com a cruz.
Eis aí, irmãos e irmãs, o “segundo Cristo”
a que o Rev. Abival se refere em seu texto: o Cristo do Calvário
e da Paixão. Trata-se do Cristo humilhado, surrado, ensangüentado,
desfigurado. Trata-se do Cristo apaixonado e crucificado.
Só
o Cristo da Cruz Pode Levar-nos à Ressurreição
e à Vida
Pois
bem! Acompanhamos até aqui as afirmações do Rev.
Abival: “Não há só o Cristo do Tabor e da
entrada triunfal em Jerusalém. Há também o Cristo
do Calvário e da Paixão. Só Ele pode conduzir-nos
à Ressurreição e à Vida.”
Esta é a palavra final do Rev. Abival que devemos salientar.
Para a nossa salvação, não basta o Cristo do Tabor,
o Cristo transfigurado e glorioso, o Cristo da entrada triunfal em Jerusalém,
aclamado como Rei e Messias. Não! Para a nossa salvação,
precisamos também do Cristo do Calvário e da Paixão,
o Cristo apaixonado e crucificado. “Só Ele pode conduzir-nos
à Ressurreição e à Vida”.
Ao escrever à Igreja de Filipos, o apóstolo Paulo retomou
um antigo hino da Igreja Cristã Primitiva e o adaptou e inseriu
em sua carta aos filipenses para falar de Jesus Cristo. Paulo escreveu
assim: “...Ele, subsistindo em forma de Deus, não julgou
como usurpação o ser igual a Deus; antes, a si mesmo se
esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se em semelhança
de homens; e, reconhecido em figura humana, a si mesmo se humilhou,
tornando-se obediente até à morte e morte de cruz. Pelo
que também Deus o exaltou sobremaneira e lhe deu o nome que está
acima de todo nome, para que ao nome de Jesus se dobre todo o joelho,
nos céus, na terra e debaixo da terra, e toda língua confesse
que Jesus Cristo é Senhor, para glória de Deus Pai.”
(Filipenses 2.6-11)
Esse texto de Paulo, esse hino da Igreja Primitiva, é muito claro
em seus dois movimentos. Em primeiro lugar, ele fala de um movimento
de cima para baixo. É o movimento de humilhação,
do qual é protagonista voluntário o próprio Jesus.
É um movimento de esvaziamento. Jesus era Deus, mas deixou isso
de lado e assumiu a forma de servo. Tornou-se ser humano. Sendo humano,
humilhou-se em obediência servil indo até a morte. Todavia,
não uma morte qualquer ou uma morte honrada, mas a pior morte
de todas para aquela época: a morte dos bandidos e dos escravos;
a morte de cruz. Este Cristo humilhado é o Cristo do Calvário
e da Paixão.
Entretanto, a este primeiro movimento, de cima para baixo, de esvaziamento
e humilhação, corresponde um segundo movimento. É
o movimento de baixo para cima. É o movimento de elevação,
de exaltação, que tem o próprio Deus como protagonista.
Por causa da sua humilhação, Deus exaltou a Cristo acima
de todos os poderes deste mundo. Por causa de sua paixão, o Pai
o ressuscitou e o recebeu à sua destra nos céus. E mais
ainda, lhe deu um nome incomparavelmente superior a qualquer outro nome.
Jesus recebeu o nome de “Senhor”. E é porque ele
é Senhor de todo o universo que todo o joelho se dobra e, prostrados,
todos o adoram. Este Cristo exaltado corresponde ao Cristo do Tabor
e da entrada triunfal em Jerusalém.
Todavia, uma coisa é muita clara: a exaltação de
Jesus vem somente depois de sua humilhação. O Cristo glorioso
do Tabor e da entrada triunfal em Jerusalém só pode ser
plenamente reconhecido depois de passar pelo Calvário e pela
Paixão. Sem Calvário e sem cruz, não há
ressurreição, nem vida, nem salvação.
Conclusão
Para
encerrarmos a nossa reflexão, precisamos atentar para o versículo
5, do capítulo 2º da carta de Paulo aos Filipenses. Trata-se
do início do trecho que lemos e diz algo muito importante: “Tende
em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus...”
Eis a orientação do apóstolo Paulo: sentir e agir
como Jesus Cristo sentiu e agiu. Enquanto cristãos, devemos ter
a Cristo como exemplo, modelo e Senhor. E o que aprendemos de Cristo
não é outra coisa senão paixão, obediência,
humildade, serviço.
Mesmo no monte Tabor, monte da transfiguração, na companhia
de Moisés e Elias, Jesus conversava com seus companheiros celestes,
sobre a morte que haveria de sofrer em Jerusalém. Mesmo na entrada
triunfal de Jerusalém, aclamado e recepcionado como Rei e Messias,
Jesus não deixou de passar a sua mensagem ao escolher um jumentinho
para entrar na cidade. Ele não entrou em Jerusalém como
um rei conquistador, em uma bela montaria ou em uma grande carruagem
real. Jesus entrou na cidade montado em jumento, animal doméstico,
animal de carga, animal de serviço. E não se desviou em
nenhum momento do plano do Pai. Ele sabia que entrava aclamado pela
multidão, mas que, em pouco tempo, a mesma multidão eufórica
pediria a sua crucificação. Jesus sabia que entrava como
rei para morrer como escravo.
Neste Domingo de Ramos e da Paixão, início de Semana Santa,
tenhamos em nós o mesmo sentimento que houve em Cristo Jesus.
Tomemos, cada um, a nossa cruz e sigamos fielmente a Jesus Cristo, o
Cristo do Calvário e da Paixão.
Amém.
Sermão pregado no Domingo de Ramos e da Paixão,
na IPI de Casa Verde, em 20 de março de 2005, no culto das 19
horas.
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