(Texto
publicado na revista “Alvorada”, de julho a setembro de 2003,
e em “O Estandarte”, edição de outubro de 2003.)
UM
DOS MAIORES LÍDERES LEIGOS DA IGREJA
No
ano de seu Centenário a IPI do Brasil perdeu um de seus maiores
líderes leigos, o Presbítero Josué Pacheco de Lima.
O presbítero Josué faleceu, em São Paulo, justamente
no dia 16 de agosto. Como escreveu o Rev. Abival Pires da Silveira no
boletim da 1ª IPI de São Paulo, datado de 24/08/2003: “Deus
reservou um dia bonito e histórico para chamar esse ‘independente
da gema’ para a eternidade.” O Presb. Josué partiu
no dia em que nossa Igreja celebrou o seu Centenário no Ginásio
do Ibirapuera.
Muitos talvez não tenham conhecido o Presb. Josué, especialmente
os mais jovens. Por isso, queremos resgatar aqui, em poucas linhas, algumas
informações importantes acerca da biografia desse grande
servo de Deus.
Josué Pacheco de Lima nasceu no dia 06/05/1919, na cidade de Guaxupé,
MG. Seus pais foram Otávio Pacheco de Lima e Olga Guilhermina Bolliger.
Seu pai veio de família católica romana, convertendo-se,
mais tarde, ao protestantismo. Sua mãe nasceu em família
luterana, freqüentando posteriormente a Igreja Presbiteriana Independente
com o marido. Josué teve três irmãos: João
Carlos, Sara (ambos falecidos) e Joana (esta encontra-se com 75 anos de
idade). Josué nasceu mineiro “por acaso”. Otávio,
seu pai, era funcionário da Companhia Mogiana de Estrada de Ferro
e, por causa do trabalho, morou em várias cidades. Encontrava-se
trabalhando em Guaxupé, quando do nascimento de Josué. Em
06/06/1919, Josué foi batizado na IPI de Guaxupé pelo Rev.
Elias José Tavares.
Em 1920, sua família mudou-se de Guaxupé para a cidade de
Casa Branca, SP. Em 1921, nova mudança, agora para Campinas, SP,
onde permaneceram até 1925. Em 1925, a família estabeleceu-se
na cidade de Elias Fausto, SP. Em 1926, os pais de Josué transferiram-se
para a Igreja Presbiteriana do Brasil, pois não havia IPI na cidade.
Nesse período abriram um ponto de pregação em Elias
Fausto. Nessa cidade ficava a fazenda do Sr. João Carlos de Lima,
avô de Josué.
Em 1935, Josué voltou a morar em Campinas e ingressou na Sociedade
de Jovens da IPI local. Nesse período, já adolescente, trabalhou
no Seminário Presbiteriano de Campinas. Em 25/12/1935, no culto
de Natal, Josué fez sua pública profissão de fé
na IPI de Campinas, perante o Rev. Orlando Ferraz. Freqüentou a igreja
de Campinas por, aproximadamente, três anos, retornando, após
esse período, para junto da família em Elias Fausto. Em
13/09/1938, veio para São Paulo alistar-se para o serviço
militar. Lembro-me muito bem dessa passagem que o Presb. Josué
repetia sempre emocionado. Aos 18 anos, vindo para São Paulo, seu
pai o aconselhou: “São Paulo é muito boa, mas não
se esqueça que você é crente...”.
Chegando em São Paulo, em 1938, passou a servir o Exército,
alojado no bairro de Santana, onde ficava o quartel. Ali desenvolveu uma
grande amizade com Waldomiro Moreira que, na época, freqüentava
a 1ª IPI de São Paulo. Levado pelo amigo (hoje na Igreja Batista),
começou a freqüentar a igreja independente, na Rua 24 de Maio.
Nesse mesmo período, entre 1938 e 1939, conheceu aquela que viria
a ser sua futura esposa, a jovem Rachel Gigli. Rachel era filha da 4ª
IPI de São Paulo (em Santana). Eventualmente, acompanhava sua tia
(Clotilde de Castro Gigli) nos trabalhos realizados na 1ª IPI. Começaram
a namorar e, já em 1939, Josué freqüentava as atividades
da igreja da namorada, em Santana.
Em 06/01/1940, Josué e Rachel ficaram noivos. Ele, que havia iniciado
o serviço militar em 01/11/1938, despediu-se do Exército
em 11/12/1940. Em 01/03/1941, passou a trabalhar na “Salus”,
empresa fabricante de filtros de água (nessa empresa trabalhou
na área de Departamento Pessoal, por 43 anos, até a sua
aposentadoria). Em 29/06/1941, trouxe, finalmente, a sua carta de transferência
da IPI de Campinas para a 4ª IPI de São Paulo e foi recebido
como membro da igreja pelo Rev. Roldão Trindade de Ávila.
Nesse mesmo ano foi eleito pela primeira vez presidente da UMPI da igreja
local. Na 4ª IPI, ele ocupou esse cargo por quinze vezes. Em alguns
momentos acumulou os cargos de presidente da UMPI da igreja (local), da
Federação Leste de Umpistas (regional) e da Confederação
do Umpismo (nacional).
No dia 02/03/1944 foi eleito diácono na 4ª IPI. Tendo em vista
a Segunda Guerra Mundial, Josué foi convocado pelo Exército.
Contudo, não foi à guerra. Serviu à pátria
pelo período de 13/03/1943 a 14/04/1945, nas cidades paulistas
de Lorena e Juquiá.
De 15 a 20/07/1947 aconteceu o 4º Congresso Nacional do Umpismo,
em São Paulo, SP. Foi eleito presidente o Prof. Mário Amaral
Novais, de Assis, SP. Josué integrou a diretoria da Confederação
como tesoureiro. Em 10/03/1949, Josué foi eleito presbítero
pela primeira vez. Exerceria o presbiterato na 4ª IPI por 37 anos
ininterruptos (de 1949 a 1986). Pouco tempo depois, em 19/03/1949, casou-se
com Rachel Gigli de Lima, na 4ª IPI de São Paulo. Celebrou
as bodas o Rev. Adolpho Machado Corrêa e tocou o órgão,
na ocasião, o jovem músico João Wilson Faustini.
Em 04/05/1949, o Presb. Josué foi diplomado como membro fundador
da revista “A Reforma”, órgão oficial da Comissão
de Educação Religiosa e Atividades Leigas (CERAL). No dia
16/03/1951, nasceu sua primeira filha, Loide de Lima.
Em 09/03/1952, foi nomeado, pelo Conselho da 4ª IPI, diretor da Congregação
de Guararema, SP. Este cargo ele exerceu em outras oportunidades. Aliás,
chegou a trabalhar em todas as congregações que foram filhas
da 4ª IPI (Casa Verde, Imirim, Guararema e Jardim Ondina). No ano
de 1954 foi escolhido superintendente da Escola Dominical pela primeira
vez. Esta função ele exerceu por onze anos (em períodos
diferentes). Em julho de 1955 foi realizado o 5º Congresso Nacional
do Umpismo, em Bauru, SP. Nessa gestão, não integrou a diretoria.
De 09 a 15/07/1958, aconteceu o 6º Congresso Nacional do Umpismo,
em Assis, SP. Pela primeira vez, Josué foi eleito presidente da
Confederação da Mocidade Presbiteriana Independente do Brasil.
No triênio 1958-1960, na condição de presidente, visitou
oito das quinze Federações de Umpistas existentes no Brasil.
Outros membros da diretoria visitaram mais cinco, totalizando treze Federações
visitadas. Em 07/11/1959, nasceu sua segunda filha, Lídia de Lima.
No 7º Congresso Nacional do Umpismo, reunido em Campinas, de 06 a
12/07/1961, Josué foi reeleito presidente da Confederação.
A revista “Coroa Real” (nº 1, de janeiro/fevereiro de
1962 - órgão oficial da Confederação da Mocidade
Presbiteriana Independente do Brasil) disse a esse respeito: “Sua
paixão pelo trabalho dos moços levou-o a esta realidade
curiosa: aos 42 anos, com alguns projetos de cabelo branco, é o
líder inconteste, que vence uma eleição num congresso
de moços, em Campinas.” Em Curitiba, no 8º Congresso
Nacional do Umpismo, reunido de 10 a 25/07/1965, Josué foi eleito
presidente pela terceira vez consecutiva. Em 1966, foi escolhido tesoureiro
da 4ª IPI de São Paulo. Esse cargo foi ocupado por ele também
em 1967. Em Brasília, DF, de 23 a 28/07/1968, reuniu-se o 9º
Congresso Nacional do Umpismo. Josué integrou a diretoria na condição
de vice-presidente, sendo eleito presidente Jauhyr Lobo. No 10º Congresso
Nacional do Umpismo, reunido em São Paulo, de 20 a 25/07/1971,
Josué Pacheco de Lima foi homenageado com o título de “Presidente
Emérito” da UMPI Nacional. São palavras do Rev. Abival,
escritas para o boletim da 1ª IPI: “Viajou por todo o Brasil
falando aos jovens e participando de reuniões, conferências,
congressos e celebrações especiais. Incansável, colocava
recursos pessoais à disposição da Igreja para cumprir
o seu ministério. A IPI e especialmente a juventude devem muito
à liderança e dedicação do presbítero
Josué.”
Passados dez anos, em reunião ordinária do Supremo Concílio
da IPI do Brasil, ocorrida na IPI de Casa Verde, em 25/01/1981, foi eleita
a nova diretoria para a Mesa Administrativa da IPIB. Pela primeira vez
foi conduzido à presidência o Rev. Abival Pires da Silveira.
Nessa oportunidade foi chamado como colaborador o Presb. Josué,
que ocupou o importante cargo de Secretário Executivo, de 1981
a 1984. Em 1983, aposentou-se da empresa “Salus”, após
43 anos de trabalho e, em 1984, aposentou-se pelo Exército como
2º Tenente. Em 25/10/1984 nasceu o seu primeiro neto, Diego, filho
da Lídia.
No dia 11/10/1986, transferiu-se da 4ª para a 1ª IPI de São
Paulo, sendo recebido como membro da igreja pelo Rev. Abival. Nesse mesmo
ano, foi eleito, pela primeira vez, presbítero da 1ª IPI,
onde freqüentou por 13 anos. Em 17/06/1987, nasce sua segunda neta,
Juliana, filha da Lídia. Em 1992 foi eleito pela segunda vez para
o presbiterato da 1ª IPI, sendo reeleito em 1995. Exerceu seu mandato
até o ano de 1998. No final de 1999 e início do ano 2000,
já se manifestavam as primeiras fases da enfermidade do Presb.
Josué. No texto já citado, diz o Rev. Abival: “Sentindo
que sua saúde vinha sendo abalada manifestou o desejo de afastar-se
do trabalho ativo da Primeira Igreja e regressou à igreja de origem,
a 4ª IPI de São Paulo.”
Nos últimos três anos (2000-2003), a enfermidade do Presb.
Josué agravou-se bastante e ele veio a falecer na data memorável
da Celebração do Centenário da IPI do Brasil, que
ele tanto amava. Partiu no dia 16/08/2003, à meia noite e meia.
A Igreja perdia um de seus mais valorosos líderes. Em sua homenagem
e em homenagem a todos os que amaram e lutaram pela Igreja Independente
foi guardado um momento de silêncio e oração no Culto
do Centenário no Ginásio do Ibirapuera. Sem dúvida,
uma das partes de maior emoção naquele dia inesquecível.
Todas essas datas e todos esses dados já seriam suficientes para
registrar a importância do Presb. Josué para nossa Igreja
Nacional. Entretanto, ainda é necessário dizer algo mais
a respeito desse “moço”. Josué exerceu na Igreja
praticamente todos os cargos que um leigo pode exercer. Com o senso de
humor que lhe era característico foi ele mesmo quem disse em entrevista
à revista “Coroa Real”, nº 1: “Já
exerci todos os cargos na Igreja. Só não fui presidente
da Sociedade de Senhoras e pastor da Igreja.” E é verdade!
Foi presbítero, diácono, superintendente de Escola Dominical,
tesoureiro do Conselho, presidente da UMPI (local, regional e nacional),
vice-presidente da UMPI (nacional), tesoureiro da UMPI (nacional), diretor
de Congregação, membro da diretoria do MAESP (Movimento
de Assistência aos Encarcerados de São Paulo), e secretário
executivo da IPIB.
Além disso, a figura do Presb. Josué é inesquecível
pelas suas características pessoais, pelo seu dinamismo. Era um
homem comunicativo, falante. Sua esposa e filhas contam que quando viajavam
de ônibus para a casa de parentes em Elias Fausto ou Capivari, SP,
Josué ia conversando a viagem inteira (mesmo que sentasse ao lado
de um passageiro que lhe fosse estranho!). Era conhecido na vizinhança.
Conhecia os pacientes da filha dentista (Loide). Era conhecido na feira,
na escola dos netos, no banco, no bairro todo. A família reforça
que era um homem afetuoso, carinhoso e bem humorado (sempre, mesmo quando
a situação era difícil). Às vezes era afobado,
apressado, ansioso, perfeccionista (especialmente com relação
aos trabalhos da Igreja).
A família descreve-o também como um homem vaidoso, que gostava
de se cuidar, se arrumar. Gostava de passar perfume e não cogitava
ir à igreja sem terno e gravata. Apreciava as reuniões em
casa. Gostava de gente. Mesmo debilitado pela doença, a família
testemunha de que bastava que fossem visitá-lo ou que houvesse
uma reunião em sua casa, que ele perguntava: “E o cafezinho?”
Era um crente hospitaleiro. Gostava de receber as pessoas em sua casa.
Dona Rachel lembra dos tempos antigos em que Josué comandava diversas
atividades, principalmente junto aos moços: “Natal dos Pobres”
(presentes e doces doados às crianças necessitadas, no Natal);
brincadeiras de salão, comandadas nas reuniões da UMPI,
aos sábados; atividades organizadas com a UMPI em Santana (visitas
ao Leprosário, à Casa de Detenção do Carandiru,
ao Planetário, entre outras); o uso do “flanelógrafo”
nos cultos ao ar livre, junto às crianças; as campanhas
para construção na igreja, encampadas pela UMPI; as peças
de teatro na igreja; etc. Até mesmo na empresa onde trabalhava,
realizava reuniões sociais (almoços, por exemplo).
O Presb. Josué foi talhado para o serviço. Apesar de haver
ocupado diversos cargos na Igreja, nunca precisou deles para trabalhar.
Isto é a sua família mesmo quem diz (e os crentes confirmam).
Josué era um visitador. Quando ia a um hospital, visitava até
pessoas que ele não conhecia. Sempre tinha uma palavra em ofícios
fúnebres. Quando falecia alguém da família ou algum
amigo, voluntariamente telefonava para todos os que conhecia avisando
do ocorrido. Não deixava passar a data de aniversário de
um familiar ou de um amigo sem dar um telefonema. Era um homem amigo e
solidário. O seu compromisso com os trabalhos da Igreja, por vezes,
levou-o a atitudes radicais. Por exemplo: quando nasceu sua filha Lídia,
diz Dona Rachel, o Presb. Josué encontrava-se longe, participando
de um congresso da UMPI. Por isso, membros da família diziam: “Esse
homem casou com a Igreja”. Isto era verdade! E uma prova é
a sua própria casa. Um verdadeiro museu! Broches da UMPI, flâmulas
de congressos da UMPI, cartas, revistas, jornais, boletins, documentos,
fotos, objetos, todos eles relacionados à Igreja. O Presb. Josué
amava a IPI do Brasil, como escreveu o Rev. Abival: “O presbítero
Josué era um independente de coração. Repetia sempre
que outros poderiam amar a Igreja tanto quanto ele, mas não mais
do que ele. Dedicou toda a sua vida à Igreja.”
No ano de seu centenário, a IPI do Brasil sofre uma perda irreparável.
O Presb. Josué era um líder sem igual. Fica, para nós,
o seu exemplo de trabalho e de amor à Igreja. Fica, para nós,
principalmente o testemunho de alguém que amava os jovens e, ao
que parece, não queria deixar de ser jovem! São suas as
palavras finais extraídas da revista “Coroa Real”,
nº 1: “Valorizo extraordinariamente os líderes do passado
– e sou 100% 1903 – mas estamos vivendo no século XX.
Devemos por isso estar atualizados e ‘sentir’ os problemas
atuais. De modo nenhum o moço evangélico pode furtar-se
hoje a ter uma participação ativa em tudo. Inclusive nos
sindicatos e nos partidos políticos. Ele precisa, além disso,
estar preocupado em evangelizar. Somos chamados. Correspondamos.”
As idéias do Presb. Josué continuam atuais. O seu desejo
e a sua disposição para o trabalho continuam necessários.
As palavras proferidas em 1962 continuam válidas não somente
para a mocidade, mas para toda a Igreja de 2003. Sigamos o exemplo deste
que foi um dos maiores e mais dedicados líderes leigos de nossa
Igreja. Aceitemos o seu desafio: valorizemos os líderes do passado,
sintamos os problemas do mundo de hoje, participemos ativamente em tudo,
evangelizemos, correspondamos ao chamado de Deus.
Rev.
Emerson R. P. dos Reis
Pastor da IPI de Casa Verde
Presbitério Santana
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