(Texto publicado em “O Estandarte”, edição de junho de 2003.)

CENTENÁRIO DE NASCIMENTO DO REV. ROLDÃO TRINDADE DE ÁVILA

No ano do centenário da Igreja Presbiteriana Independente do Brasil, a 4ª IPI de São Paulo e o Presbitério Santana destacam também a passagem, no dia 28 de maio, do centenário de nascimento do ilustre Rev. Roldão Trindade de Ávila.
O Rev. Roldão nasceu no dia 28 de maio de 1903 na zona rural de Piracicaba, tendo sido registrado na cidade de Guareí, ambas no estado de São Paulo. Foi batizado na Igreja Metodista de Piracicaba pelo Rev. Miguel Dickie. Aos dois anos de idade passou a residir em Torre de Pedra, SP. Seu interesse pelos estudos manifestou-se antes dos seis anos de idade. Admitido como ouvinte na classe, sua professora d. Amélia Kuntz Cardoso, notou sua facilidade para os estudos, influenciando sua mãe, d. Ana Pires Barbosa, que a partir daí alimentou a esperança do filho estudar para o Sagrado Ministério. Já na infância, o menino Roldão sentia a vocação para o pastorado.
Trabalhou com seu pai, sr. Faustino Trindade de Ávila, tendo exercido, dos 8 aos 19 anos, as mais diversas tarefas, tanto rurais como comerciais (transporte em carro de boi, tropeiro, servente de pedreiro, ajudante em padaria e armazém, serviços na lavoura...). Foi vice-presidente da primeira diretoria da sociedade juvenil da Igreja Presbiteriana de Torre de Pedra. Exerceu a função de zelador da IPI de Torre Pedra por vários anos e a mesma função na Igreja de Itapetininga, SP. Como ele mesmo escreveu, considerou que Deus estava pondo em seu coração “o prazer de zelar das coisas menores de sua Igreja, para depois zelar dos interesses mais altos de sua obra no ministério e outras funções de responsabilidade” que viria a exercer. “A zeladoria era um primeiro passo para uma caminhada longa no serviço de Deus.”
Embora tivesse interrompido seus estudos na escola, estudou música e harmônio, o que lhe permitiu suprir a falta de organista e regente de coro em igrejas pelas quais passou.
No dia 25 de maio de 1919, aos 16 anos de idade, foi recebido em profissão de fé na IPI de Torre de Pedra, pelo Rev. Alfredo Ferreira, tendo considerado este evento como outro passo importante para a realização de seu sonho de ser pastor. Aconselhado pelo Rev. Willian Kerr (pastor presbiteriano), escreveu para o Rev. Eduardo Carlos Pereira (na ocasião reitor do Seminário e diretor do Colégio Evangélico, em São Paulo) propondo realizar serviços no colégio em troca do estudo almejado no internato, pois as exigências financeiras estavam fora do seu alcance. Foi-lhe sugerido estudar em Itapetininga, o que fez, hospedando-se na casa do Rev. Alfredo Ferreira. Com a colaboração de dez crentes conseguiu recursos para o colégio. Assim passou os anos de 1922 e 1923 na cidade de Itapetininga, estudando no Externato Itapetiningano e no Externato Normal, exercendo a função de organista da Igreja de Itapetininga e recebendo da família Ferreira as primeiras lições de “boas maneiras”, que transformariam seus hábitos rurais em urbanos.
Em 1924, passou a estudar no Colégio Evangélico, em São Paulo, como interno, com a ajuda das igrejas de Itapetininga e Torre de Pedra, tendo prestado exames de algumas matérias avulsas no Mackenzie, no Liceu Eduardo Prado e no Colégio Rio Branco, até completar o ginásio.
No ano de 1925, a convite do Rev. Bento Ferraz, colaborou na 2ª IPI de São Paulo, como organista, regente de coro e professor da classe de adolescentes da Escola Dominical. Nesse mesmo ano, conheceu sua futura esposa, Noemi, filha de d. Emília Cagnoto Ferraz e do Rev. Salomão Ferraz, pároco da Igreja Episcopal Brasileira, morador na rua Visconde de Ouro Preto (mesma rua do Colégio Evangélico).
Iniciou seus estudos no Seminário da Igreja Presbiteriana Independente em 1927, ano em que foi convidado pelo Dr. Flamínio Fávero a colaborar como escriturário em “O Estandarte”, atividade que exerceu até 1929. Como seminarista, teve oportunidade, nos períodos de férias em que visitava as igrejas, de registrar trezentas e trinta e duas pregações. No Seminário, teve como companheiro de quarto o Rev. Azor Etz Rodrigues. Entre os professores, teve aula com os Revs. Otoniel Mota, Vicente Themudo Lessa, Alfredo Borges Teixeira e Epaminondas Melo do Amaral, entre outros. Em 1930, o Seminário foi transferido para a cidade do Rio de Janeiro, RJ. Lá, completou seus estudos e recebeu o diploma de bacharel em Teologia, expedido em 12 de novembro de 1930, pelo Seminário Unido do Rio de Janeiro. O hino cantado no dia da formatura (“Obediência” – Salmos e Hinos nº 445) causou grande impacto no Rev. Roldão: “As palavras deste hino ficaram gravadas em meu coração como programa e apelo permanente em todos os anos do meu ministério ativo.” Das palavras deste hino resultaram dois grandes lemas para o seu ministério: nunca recusar um trabalho que um concílio lhe confiasse e nunca reclamar aumento do salário que lhe fosse votado.
Em 18 de janeiro de 1931, foi licenciado pelo Presbitério do Sul, na cidade de Bauru, tendo sido designado para a igreja de Botucatu, ambas no estado de São Paulo. Nesse seu primeiro campo, tinha como responsabilidade visitar as igrejas de São Manuel, Lençóis Paulista e Prata de Botucatu (hoje Pratânea). A igreja de São Manuel estava fechada há mais de cinco anos, havendo na cidade apenas duas famílias crentes. Com luta, sacrifício e desprendimento, após haver executado trabalhos de pedreiro, lixado e envernizado os bancos, em uma semana, reabriu um “templo que nunca mais se fechou para o trabalho”.
Foi também no ano de 1931, no dia 25 de junho, que o Rev. Roldão casou-se com d. Noemi. A cerimônia religiosa ocorreu em São Paulo, SP, na Capela do Salvador (Igreja Episcopal), tendo sido celebrante o Rev. Salomão, pai da noiva. O casal teve cinco filhos: Célia, Edy, os gêmeos Laerte e Laércio (este falecido em 09 de março de 1965) e Leda.
O Rev. Roldão foi ordenado pastor no dia 17 de janeiro de 1932, em cerimônia realizada na 1ª IPI de São Paulo, por ocasião da reunião do Sínodo e do Presbitério do Sul, presidido pelo Rev. Olímpio Batista de Carvalho.
Exerceu seu pastorado, entre igrejas e congregações, nas seguintes comunidades: Bauru, Guaianazes, Lençóis Paulista, Agudos, São Manuel, Piratininga, São Luís do Guaricanga, Guaricanga, Botucatu, Prata de Botucatu, Avaré, Cachoeirinha do Avaré, Itaí, Bofete, Porangaba, Sorocaba, Turvinho da Piedade, Tietê, Piracambuçu, Porto Feliz, Vargem Fria, Torre de Pedra, Turvo dos Calaças, 4ª IPI de São Paulo, Casa Verde, Santos, Pedro Barros, Guarujá, Cambuci, Campinas, Bela Vista, Carapicuíba, São José da Pitanga, Imirim, Guararema, Carandiru, São Silvestre, Cidade Patriarca, Vila Yara, Vila Santa Maria e Rio Pequeno.
No período em que pastoreava a igreja de Sorocaba, em 1935, participou das reuniões preliminares que redundaram na criação do Hospital Evangélico de Sorocaba, onde foi eleito vice-presidente da primeira diretoria. Lamentavelmente esse fato foi omitido no histórico daquele hospital publicado posteriormente em “O Brasil Presbiteriano”.
O seu mais longo pastorado foi exercido na 4ª IPI de São Paulo nos períodos de 1941 a 1943 e de 1955 a 1963. A 4ª Igreja o homenageou com o título de Pastor Emérito no ano de 1987.
O Rev. Roldão foi um dos ministros de mais longa folha de serviços prestados à Igreja Nacional, particularmente ao Seminário de São Paulo. Eleito professor do Seminário em 1938, exerceu essa função por vinte e sete anos, assim como a de diretor, por seis anos. A designação do dia 21 de abril como o “Dia do Seminário” foi proposta sua aprovada pelo Sínodo, na década de 40. Durante o seu pastorado, por muitos anos (inclusive no período de discussão da famosa “Questão Doutrinária”, que dividiu a Igreja nos anos de 1938 a 1942), acumulou os cargos de diretor do Seminário e de professor, lecionando diversas matérias (um total de vinte e duas). Mais tarde veio o reconhecimento da Igreja Nacional que, na reunião do Sínodo de 1957, lhe concedeu o título de “Professor Catedrático de Teologia Histórica”. Recebeu o seu diploma de catedrático em culto solene realizado no templo da 1ª IPI de São Paulo no dia 21 de abril de 1957. O Rev. Roldão escreveu que recebeu “esta honra como uma grande bênção de Deus, não só pelo privilégio de assumir um cargo tão importante”, mas também “pela satisfação de ver corrigida uma injustiça sofrida em 1952”. Nessa ocasião fora exonerado das funções que exercia no Seminário sem explicações plausíveis.
Além de diretor e professor do Seminário de São Paulo, ele foi ainda, secretário executivo do Sínodo (concílio maior da IPIB até então), redator auxiliar de “O Estandarte”, tesoureiro de presbitérios e tesoureiro geral da IPI (este último cargo foi exercido por 29 anos).
No ano de 1972, aos sessenta e oito anos de idade, aposentou-se de suas funções de pastor, professor e tesoureiro. Sua decisão foi homologada pela Mesa Administrativa no dia 14 de março. Para manter-se em atividade após a jubilação, dedicou-se a uma pesquisa histórica na coleção de “O Estandarte” a respeito das igrejas presbiterianas independentes e seus pastores, dos anos de 1903 a 1978, formando um “banco de dados” referente a quatrocentos e vinte e oito pastores e quatrocentos e vinte e seis igrejas. Esse material, intitulado “Igrejas” e “Pastores”, foi doado ao Museu de História da IPI do Brasil em 28 de agosto de 1986.
Aos oitenta anos de idade, passou a registrar as suas lembranças em um caderno de duzentas páginas, todas (frente e verso) preenchidas com letra firme, clara e precisa, compreendendo período anterior a 1903 até o ano de 1978, onde são relatados fatos de sua infância, adolescência, juventude, vida familiar e pastoral. Nesse manuscrito (na verdade uma autobiografia não publicada) encontramos fonte de consulta para a história da Igreja e do Seminário e, principalmente, o relato de uma vida inspiradora e consagrada ao serviço de Deus e da sua amada Igreja.
O Rev. Roldão Trindade de Ávila faleceu no dia 12 de fevereiro de 1992, aos oitenta e nove anos de idade, sendo sepultado no Cemitério do Redentor, em São Paulo. Sua esposa, d. Noemi Ferraz de Ávila, faleceu em 12 de maio de 1997. O casal deixou aos filhos, netos e bisnetos, uma herança espiritual que até hoje permanece e edifica.
Em sua “autobiografia”, o Rev. Roldão escreveu: “Operando em vários setores da atividade eclesiástica, não consegui um trabalho perfeito, porém tenho a consciência tranqüila, lembrando que fiz o melhor que me foi possível dentro das minhas limitações e das circunstâncias especiais, muitas vezes desfavoráveis em que tive de realizar o trabalho. Quando faleceu o Rev. Eduardo Carlos Pereira, em 1923, alguém escreveu ou falou que ele programou a sua vida com as suas letras iniciais – E.C.P. – Evangelho, Cristo e Pátria, e assim foi a sua vida. Com o entusiasmo de moço destaquei as minhas iniciais – R.T.A. – Religião, Trabalho e Amizade. Dentro desse roteiro procurei viver, praticar e ensinar a religião revelada na Bíblia; nunca recusei qualquer trabalho, que estivesse ao meu alcance, que me fosse confiado (...); procurei sempre ganhar amigos e manter as amizades conquistadas, evitando criar inimizades (...).”
Na passagem do centenário de nascimento do Rev. Roldão, rogamos a Deus para que este continue sendo o “roteiro” de nossas vidas enquanto pastores e leigos em nossas igrejas: a religião, o trabalho e a amizade. Certamente a IPI do Brasil será abençoada através das nossas vidas, como o foi através da vida do saudoso Rev. Roldão Trindade de Ávila.

Rev. Emerson R. P. dos Reis
Pator da IPI de Casa Verde
Presbitério Santana