(Texto escrito para publicação em Caderno Especial de “O Estandarte”,
na edição do mês de outubro de 2001)

A REFORMA E OS SACRAMENTOS: A CEIA DO SENHOR

Introdução

Tenho a impressão de que a maioria dos membros de nossas igrejas, inclusive presbíteros(as) e pastores(as), não sabem o significado da Mesa do Senhor.
Certa vez participei do culto em uma de nossas igrejas e a Ceia foi celebrada antes do sermão. Já presenciei celebrações em que ao invés de se elevar a Deus uma oração de “ação de graças” (aliás, o significado da palavra “eucaristia”), o pastor orou “consagrando os elementos” da Ceia. Ouvimos de pastores(as) e membros da igreja que o pão e o vinho são apenas símbolos do corpo e do sangue de Cristo. Há algum tempo atrás, um antigo membro da igreja me disse: “Seria ruim se nós participássemos da Ceia todo domingo. A Santa Ceia ia se tornar uma coisa rotineira. É bom quando acontece uma vez por mês. Todo mundo fica esperando o primeiro domingo. A igreja fica cheia nesse dia...”. E o que dizer do “clima” da celebração da Ceia? Os membros seguram o pão e o cálice em suas mãos e participam em um misto de solenidade e tristeza.
Estas cenas observamos em nossas comunidades. Por isso pergunto: o que está acontecendo no momento em que celebramos a Ceia do Senhor? Seria proveitoso que, quando comemoramos mais um aniversário da Reforma Protestante, buscássemos responder a essa questão voltando os nossos olhos para os próprios reformadores, especialmente João Calvino. É o que pretendemos fazer.

A Ceia do Senhor Antes da Reforma

Como estava a liturgia antes da Reforma?
O culto não ia nada bem. A Igreja estava dividida entre clero e leigos. A liturgia era alguma coisa que o sacerdote fazia em favor do povo. O sacerdote fazia, o povo assistia. Passou-se a desvalorizar a Palavra e sua proclamação no culto. A missa era realizada em latim. Os leigos nada compreendiam. O povo também não falava e nem orava no culto. Tudo era feito pelo sacerdote, de maneira incompreensível e muitas vezes inaudível. Restava ao povo contemplar o que estava acontecendo.
E quanto à Ceia do Senhor? Na liturgia, tudo servia como preparação para a Eucaristia. A missa eucarística era entendida como um sacrifício que o sacerdote apresentava pelos pecados do povo. Era como se o sacrifício de Cristo fosse repetido. Desenvolveu-se nessa época a idéia de que os sacramentos causam a graça de Deus. Não é Deus quem, diretamente, causa a graça. Os sacramentos eram entendidos como eficazes por si mesmos, tinham poder próprio. Contudo, quem celebrava os sacramentos era o clero. O sacerdote era um ser poderoso, que administrava e infundia a graça. Tudo dependia de sua consagração. Imaginava-se que, a partir dessa consagração, as substâncias do pão e do vinho eram transformadas, respectivamente, nas substâncias do corpo e do sangue de Cristo. O povo, ao receber a hóstia consagrada, recebia verdadeiramente a carne de Cristo e o sacerdote, ao beber do cálice, bebia verdadeiramente o sangue de Cristo. Essa doutrina foi chamada de “transubstanciação”.
O povo começou a sentir-se muito indigno de participar da Ceia do Senhor, pois tratava-se do próprio corpo natural de Cristo presente. Induzido pelo clero, deixou de comungar com regularidade. Ao povo só restava contemplar e adorar a hóstia, a carne e o sangue de Cristo presentes diante de seus olhos. O ponto alto do culto era quando o sacerdote fazia Cristo tornar-se corporalmente presente na Ceia.

A Reação dos Reformadores e Suas Divergências Quanto à Ceia do Senhor

A Reforma transformou a liturgia. Os reformadores procuraram: - restaurar a idéia de que o culto é uma tarefa de todo o povo de Deus; - recuperar a importância das Escrituras e do sermão no culto; - realizar o culto na língua que o povo entendia; - aumentar a freqüência da celebração da Ceia; - varrer da liturgia a suntuosidade e tudo aquilo que havia sido agregado por conta da tradição.
Os líderes da Reforma concordavam em muitos assuntos, mas não concordavam em tudo. O pensamento acerca da Santa Ceia foi um dos motivos de divisão entre eles. Citaremos, rapidamente, as opiniões de Lutero, Zuínglio e Calvino sobre esse assunto.
Lutero, junto com os outros reformadores, negou boa parte das doutrinas romanas sobre a Ceia. Não aceitava a Eucaristia como obra meritória. Não aceitava a Eucaristia como uma repetição do sacrifício de Cristo. Não aceitava que o cálice da Santa Ceia fosse negado aos fiéis. Não aceitava o “milagre supérfluo” da transubstanciação. Para Lutero, a Ceia do Senhor, ao lado da proclamação da Palavra, era o centro do culto. O sacramento vale pela graça que o acompanha e é eficaz na medida em que o povo participa dele com fé.
Lutero acreditava que a presença de Cristo na Ceia vai além de uma presença simbólica. Entendia que, o corpo de Cristo pode se fazer presente na Ceia, da mesma forma como a sua natureza divina se fazia presente no homem Jesus. Para Lutero, na Ceia, ao mesmo tempo em que estão presentes o pão e o vinho, também estão presentes o corpo e o sangue de Jesus, ou seja, o corpo e o sangue de Cristo estão presentes “em”, “com”, “debaixo”, “ao redor” e “por trás” do pão e do vinho. Esta doutrina ficou conhecida como “consubstanciação” e acabou se tornando o ponto de conflito entre o reformador alemão e os reformadores suíços. Entre eles, Zuínglio.
Zuínglio queria que tudo estivesse de acordo com a Bíblia. Por isso, restaurou em Zurique a celebração da Ceia em ambas espécies. Para ele, a presença corporal de Cristo na Ceia era inútil. O corpo de Cristo encontra-se no céu ao lado do Pai e não pode se fazer presente na terra durante a Ceia. O corpo natural de Cristo não pode ser “mastigado”. Só podemos enxergá-lo com os olhos da fé. Mas Cristo não está ausente na Ceia. A Ceia é mais do que um ato humano. Ela é o sinal da graça de Deus. Se Deus não está presente, a graça e a resposta de fé não acontecem.
Zuínglio acreditava que a Ceia do Senhor é um ato de comemoração e representação simbólica da paixão e morte de Jesus, uma lembrança do sacrifício suficiente de Cristo. A Igreja, ao comungar, transforma-se no Corpo de Cristo.
Zuínglio aumentou a freqüência da celebração da Eucaristia de uma para quatro vezes ao ano. Assim o povo participava mais vezes da Ceia e a Mesa era “protegida” daqueles que não observassem uma vida cristã impoluta. Quando a Ceia não era celebrada, realizava-se o culto com o sermão. O resultado era que, na maioria dos cultos, a Palavra e a Eucaristia estavam separados.
E Calvino, o que pensava? Para Calvino, a consubstanciação de Lutero encerrava a presença física de Jesus no pão e no vinho, e o simbolismo de Zuínglio esvaziava a Ceia da presença do Senhor. Calvino afirmava que Cristo está verdadeiramente presente na Eucaristia. Esta presença não é física, como na transubstanciação e na consubstanciação, mas nem por isso deixa de ser real e válida. Para Calvino, falar da presença de Cristo na Ceia é falar de um mistério. Só podemos sentir a sua presença pela fé. Só podemos entender a sua presença real e espiritual se levarmos em consideração a ação do Espírito Santo. É o Espírito quem torna possível a santa presença na Ceia.
Calvino defendia que os símbolos da comunhão nunca são coisas vazias, lembranças do sacrifício de Cristo. Os símbolos foram escolhidos por Deus para comunicar a sua graça. Os símbolos não se transformam, não se misturam, não se confundem com a realidade que querem significar. A realidade do sacramento e os símbolos são coisas distintas, possuindo, porém, afinidade na medida em que Deus, por seu Espírito, está agindo. E isto só acontece para aqueles que possuem fé.
Para Calvino, a Ceia do Senhor é o banquete que sustenta a vida cristã. Todos aqueles que foram admitidos à Igreja pelo Batismo, precisam ser nutridos pela Eucaristia. Na Mesa, o Cristo ressurreto comunica a vida. O ser humano é fraco e imperfeito. Sua fé é insuficiente. Precisa alimentar-se de Cristo. Este alimento espiritual só se encontra na Palavra proclamada e selada na Ceia do Senhor. Por isso Calvino insistia para que a Ceia fosse celebrada em todo o culto, pois somos fracos e precisamos ser nutridos por Deus.
Um último ponto. Para Calvino, não existe Ceia fora da Igreja e não existe Igreja sem a Ceia do Senhor. A Ceia é para a comunidade dos batizados e deve ser sempre celebrada no contexto do culto.

Conclusão

Concluindo. Todos os reformadores entendiam que a Ceia do Senhor era essencial no culto e na vida cristã. Ainda assim divergiam. Essas divergências focalizavam-se na questão da presença de Cristo na Ceia. Todos concordavam que Cristo se faz presente na Ceia. Discordavam quanto à forma dessa presença. Nós, presbiterianos, fomos influenciados pelas idéias de Zuínglio. Por um lado, ignoramos a opinião de Calvino sobre a presença de Cristo na Ceia e dizemos que o pão e o vinho são símbolos do corpo e do sangue de Jesus. Por outro lado, realizamos mais cultos onde a Palavra é proclamada e a Ceia não é celebrada.
O pensamento dos reformadores, em especial o de João Calvino, nos desafia. Deveríamos refletir mais a respeito da freqüência da celebração da Ceia. O que impede que celebremos sempre a Eucaristia? Até que ponto não tornamos a Ceia um apêndice mensal em nossas liturgias? Uma outra questão que tem dividido nossa denominação é a participação de todos os batizados, inclusive as crianças, na Ceia do Senhor. O que, de fato, é indispensável para aqueles que desejam participar da Mesa? Consciência, vontade ou fé? Só os adultos precisam da Ceia? O que João Calvino diria sobre isto?
Precisamos conhecer o significado dos sacramentos. Isto não tem acontecido. Gostamos de discutir e opinar sem estudar. Espero que este texto seja um estímulo para aprofundamento. Indico três livros que consultei: - “Uma História Ilustrada do Cristianismo – Vol. 6 – A Era dos Reformadores”, de J. L. Gonzalez, Ed. Vida Nova; - “O Pensamento da Reforma”, de H. Strohl, ASTE; e - “Grandes Temas da Tradição Reformada”, (ed.) Donald K. Mckim, editado no Brasil pela Associação Evangélica Literária Pendão Real.

Rev. Emerson R. P. dos Reis
Pastor da IPI de Casa Verde
Presbiterio Santana