(Texto para publicação em “O
Estandarte”, na edição de maio de 2005.)
O
USO DE CÂNTICOS E CORINHOS NO CULTO
Nas
últimas edições de O Estandarte, esta coluna sobre
o culto reformado tem abordado o lugar da música na liturgia. Hoje
em dia, ao falarmos em música no contexto do culto em nossas igrejas,
não podemos deixar de mencionar os chamados “corinhos”
e “cânticos de louvor”. Em muitas igrejas, eles são
praticamente toda a música do culto. Há igrejas que utilizam
pouco o hinário (seja ele o Cantai Todos os Povos ou o Salmos e
Hinos), mas que não abrem mão do “hinário de
parede”: os cânticos ou corinhos projetados pelo retroprojetor.
Normalmente, os mais velhos gostam dos hinos tradicionais e dos corais
e, os mais jovens, apreciam os cânticos contemporâneos e as
“bandas” de estilo “gospel”. A igreja e a liturgia
precisam de equilíbrio. O culto que agrada a Deus é aquele
que é oferecido com sinceridade, amor, compromisso e coerência,
independentemente do estilo musical.
Nesse culto, cabem os corinhos e os cânticos contemporâneos?
Cabem! Porém, tudo depende de como serão utilizados. Queremos,
aqui, apresentar algumas sugestões para utilização
de tais recursos na liturgia reformada.
OS CÂNTICOS DEVEM ESTAR DE ACORDO COM A BÍBLIA E
COM AS DOUTRINAS
O
Cristianismo é a religião do “livro”. A Bíblia
é nossa regra de fé e de prática. Os presbiterianos
fazem parte da Igreja Reformada, que sempre se reforma, segundo as Escrituras.
Isto deve valer também para aquilo que cantamos.
Toda produção musical utilizada na igreja e no culto deve
levar em consideração a Palavra de Deus. Assim, é
bom perguntar: nossos corinhos e cânticos estão de acordo
com a Bíblia Sagrada?
Hoje em dia, “importamos” cânticos e corinhos de outras
igrejas (ditas evangélicas). A produção da chamada
“música gospel” é imensa. Ela entra em nossos
lares e igrejas pelo rádio, pela tv, pelos cd’s... É
grande a tentação de inserirmos músicas que são
cantadas em outras comunidades em nossas liturgias.
Atraídos pela novidade, pelos ritmos, pelos arranjos instrumentais,
acabamos dando pouca atenção à letra e ao conteúdo
teológico de tais cânticos. Precisamos perguntar: os corinhos
e cânticos que entoamos estão em harmonia com nosso sistema
doutrinário e com a teologia reformada?
PARA
CADA MOMENTO DO CULTO, UM CÂNTICO ADEQUADO
É muito comum
encontrarmos nas liturgias de nossas igrejas o “momento de louvor”.
É o momento em que se canta corinhos e cânticos contemporâneos
no culto. Nesse momento cabem três, cinco ou mais cânticos
entoados de um só vez, um após o outro, separados apenas
por pequenas mensagens proferidas pelos dirigentes do “louvor”.
Sinceramente, do ponto de vista litúrgico, este não é
o melhor jeito para inserirmos corinhos e cânticos na liturgia.
Podemos observar que nesse “momento de louvor”, por vezes,
são cantados, lado a lado, corinhos cujas letras ficariam mais
adequadas em outros momentos do culto (confissão, gratidão,
envio...). Além disso, não faz muito sentido colocar um
monte de cânticos juntos em um único momento. Pode até
ser bem cansativo.
Muito melhor é distribuir tais cânticos e corinhos nos variados
momentos do culto: assim como fazemos com os hinos, colocando-os, um por
vez, no momento mais adequado (adoração, ofertório,
santa ceia...); assim como fazemos com as orações, colocando-as,
uma por vez, de acordo com o seu momento na liturgia (invocação,
iluminação, intercessão...). Da mesma forma como
fazemos com os hinos e as orações, também devemos
proceder com os cânticos e corinhos. Cada momento litúrgico
pede um tipo diferente de cântico. Igualmente com o tempo litúrgico
no decorrer do Ano Cristão: Natal, Páscoa, Pentecostes,
por exemplo, pedem cânticos diferentes, que estejam em harmonia
com a data que é celebrada.
OS
CÂNTICOS DEVEM PASSAR POR UM EXAME PRÉVIO DO(A) PASTOR(A)
Justamente
porque existe hoje uma quantidade enorme de música evangélica
transitando pelas nossas igrejas é que precisamos ser cuidadosos.
Já falamos aqui da importância da Bíblia, das doutrinas
e de se respeitar os diversos momentos da liturgia.
É importante verificar o que cantamos na igreja. No ambiente do
culto não vale qualquer coisa. Para Deus, sempre o melhor! Tem
que ser assim também com os corinhos e cânticos contemporâneos.
Vários desses cânticos têm letra e música muito
ruins. Letras desinteressantes, rimas previsíveis, temas repetitivos...
Tudo isto sem falar nos erros de língua portuguesa! Porém,
no que diz respeito à letra, o mais grave de tudo é o conteúdo
teológico que muitos cânticos veiculam. Precisamos estar
atentos a este “detalhe”.
Na maior parte das igrejas, são os jovens e os músicos que
trazem e ensinam para a comunidade corinhos e cânticos. Porém,
de um modo geral, por mais boa vontade e bom senso que tenham nossos jovens
e músicos, eles não possuem formação teológica
e todo o preparo necessário para analisarem a mensagem de tais
cânticos. Muitas vezes, há uma grande preocupação
com a melodia, o ritmo, os instrumentos, o som, o microfone etc, e pouca,
ou nenhuma, preocupação com as letras que serão cantadas.
É bom lembrar que a tradição reformada sempre deu
mais importância à letra do que à música do
cântico entoado na igreja.
Na Constituição da IPIB, no artigo 51, alínea III,
consta uma das atribuições do ministério pastoral:
“supervisionar a liturgia e a música”. Isto significa
que o(a) pastor(a) tem responsabilidades quanto à música
na igreja e deve cuidar da qualidade dos cânticos que são
utilizados no culto a Deus. Os jovens e os músicos não devem
ficar com essa tarefa sozinhos.
NOSSA
IGREJA TEM MATERIAL LITÚRGICO E MUSICAL PRÓPRIO
Estamos
sempre trazendo material de outras fontes para utilizar em nossa denominação.
Isto vale especialmente com relação à liturgia e
à música. É bem verdade que não estamos isolados
no mundo. O material produzido em outra igreja pode até ser bom
e contribuir para o nosso aperfeiçoamento. Todavia, não
podemos esquecer e desprezar aquilo que é nosso.
Devemos valorizar o material litúrgico e musical de nossa denominação.
O hinário de nossa igreja (Cantai Todos os Povos) procurou um ponto
de equilíbrio, mesclando hinos tradicionais com cânticos
contemporâneos. Ali encontramos música para todos os momentos
do culto. Ali encontramos música para todos os tempos litúrgicos
do Ano Cristão. Ali encontramos desde “corinhos” populares
em nossas comunidades até hinos que provém de nossa tradição
reformada.
COLOCANDO
OS CÂNTICOS EM SEU DEVIDO LUGAR
Houve
um tempo em que o sermão era considerado o momento mais importante
do culto. No templo, o púlpito era colocado em um lugar central
e elevado. A mesa da Santa Ceia também sempre teve um lugar de
destaque. Ultimamente, porém, o que temos visto é que o
sermão e a eucaristia tem ficado em segundo lugar.
O lugar de destaque, hoje, é dado à música. Em muitas
igrejas, ao invés do púlpito, o que existe é uma
espécie de “palco” onde os músicos e as bandas
se “apresentam” e dirigem o “louvor”. Esse “momento
de louvor” torna-se o momento mais longo e o ponto culminante do
culto, ao invés da Eucaristia. Não é demais dizer
que em muitas igrejas a música ocupa o lugar central, que deveria
ser da Palavra proclamada e selada no Sacramento.
No que diz respeito à música, nossos jovens, nossos músicos,
nossos instrumentistas, nossos conjuntos musicais, nossas bandas, têm
que estar atentos para o fato de que quando prestamos culto a Deus, Ele
é quem deve estar no centro de tudo e não o ser humano vaidoso
e egoísta. Precisamos cuidar para que nossos corais, conjuntos
e bandas não se “apresentem” no culto, pois não
estamos em um show ou programa de entretenimento. As atenções
não devem estar voltadas para o cantor-vocalista que “puxa”
o louvor, ou ainda para o músico que faz o seu “solo”
de guitarra, saxofone, bateria, gaita, teclado ou qualquer que seja o
instrumento. Deus, e não o ser humano, deve ser o centro do culto.
Os corais, conjuntos, bandas, músicos, devem ajudar a igreja a
entoar a sua adoração, a sua oração, o seu
louvor, a sua gratidão a Deus. Este deve ser seu objetivo: auxiliar
a comunidade-igreja em seu serviço a Deus.
A música é muito importante no culto, mas o seu lugar de
importância não é o lugar central da Palavra e do
Sacramento. Precisamos acabar com os palcos, as apresentações,
os cultos-show, e devolver aos seus devidos lugares, na liturgia, os cânticos,
a Palavra e o Sacramento.
EQUIPE
DE LITURGIA E MÚSICA
Uma
sugestão que pode dar certo é a criação de
uma equipe de
liturgia e música encabeçada pelo(a) pastor(a), na condição
de supervisor(a). Dessa equipe podem fazer parte: pessoas envolvidas com
a preparação do culto; representante dos músicos
instrumentistas; representante do coral; representante dos conjuntos e
bandas; entre outros. Envolver os jovens nesse trabalho é essencial.
Esta equipe pode ser o lugar de discussão e aprendizado sobre música
e liturgia, bem como o lugar de sugestões e planejamento da atividade
litúrgica e musical da igreja. Quando as pessoas passam a entender
a estrutura do culto; o significado dos momentos litúrgicos; a
unidade que tem que existir entre Bíblia, doutrina e música;
e quando participam da elaboração de uma liturgia; então,
passam a compreender que no culto tudo tem que fazer sentido e, assim,
passam a escolher melhor os cânticos a serem entoados no culto.
É importante orientar os jovens e os músicos sobre liturgia
cristã e reformada e envolvê-los na elaboração
da liturgia dominical.
Rev. Emerson R. P. dos Reis
Pastor da IPI de Casa Verde
Presbiterio Bandeirante
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